Por questões que podem parecer óbvias aos menos avisados, o banheiro de casa é sempre tido como o local mais infestado de microorganismos, germes e bactérias. Engana-se quem pensa assim. Na verdade, a cozinha é o ambiente mais contaminado e requer cuidados redobrados de higienização. Afinal, é lá que preparamos nossas refeições.
A cozinha doméstica reserva locais que servem como verdadeiros paraísos para os germes e bactérias se reproduzirem, infestando tudo. E a pia é o epicentro da contaminação. Os microorganismos desenvolvem-se em pontos como as ranhuras da tábua de cortar carne, na nem tão inocente esponja de lavar pratos, no fogão, microondas, grelha, geladeira, despensa, azulejos e piso...
Com água e comida de sobra, as bactérias fazem a festa. Não basta apenas lavar a louça e guardar as sobras na geladeira. A dona-de-casa deve estar ciente dos riscos que a falta de cuidado — e até de informação mesmo — pode gerar para a saúde de todos em casa.
Estatísticas dão conta que as refeições feitas em casa são responsáveis por boa parte das infecções intestinais, as chamadas Doenças Veiculadas por Alimentos (DVAs). O descuido no preparo dos alimentos num ambiente permeado por esses inimigos invisíveis como a cozinha pode resultar em diarréias, vômitos, febres e mal-estar.
Esponjas e panos de prato são os principais meios para o desenvolvimento dos causadores das DVAs. Estima-se que existam cerca de 10 mil bactérias em cada mililitro de água concentrada na pia. E sabe aquela esponjinha de duas faces que a mamãe usa para lavar a louça? Ela pode concentrar até 10 milhões de germes por mililitro de líquido. Algo realmente assustador! Os resíduos de alimentos grudados na esponja junto à umidade do ambiente fazem com que as bactérias se multipliquem rapidamente. O ideal é trocar as esponjas a cada semana de uso.
“As pessoas costumam acreditar que o banheiro é o lugar da casa com mais germes e bactérias pelo fato de defecarem nele; mas, na verdade, a cozinha tem mais micróbios. E a maioria das pessoas não tem consciência disso. É preciso que se saiba que só o fato de arrumar a cozinha depois das refeições não quer dizer que o local está limpo. Não está!”, comenta a professora Maria Celeste Nunes de Melo, do Laboratório de Microbiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Doenças, bactérias e toxinas
Segundo a microbiologista Maria José de Britto Costa Fernandes, também professora da UFRN, na tentativa de se evitar infecções intestinais e outras doenças gastro-intestinais, muitas vezes não basta apenas aquecer o alimento antes de comê-lo. Isso porque mesmo que a bactéria seja destruída pelo calor, ela deixa a toxina nociva na comida, o que desencadeia o processo de diarréia. “Alguns insetos como formigas e moscas também servem de vetores para algumas doenças, pois trazem microorganismos em suas patas. As pessoas também devem ter cuidado em lavar sempre frutas e verduras.”
Sempre que alguém em casa aparece com diarréria ou infecção intestinal comenta que “foi algo estragado que comeu na rua”. Nunca se atribui o mal-estar a algum alimento ingerido em sua casa mesmo. “Algumas bactérias produzem enterotoxinas. Mesmo que o alimento seja cozido, não resolve, pois muitas dessas toxinas são termorresistentes”, diz profª Celeste. “Ingere-se a própria bactéria ou a toxina produzida por ela”, complementa profª Maria José. “Quando muitas pessoas têm problemas de infecção provocados por algo que comeram numa festa, isso é causado por que alguma toxina estava presente nos salgadinhos”, exemplifica profª Maria José de Britto.
As microbiologistas da UFRN consideram como principais causadoras de problemas relacionados à cozinha as bactérias escherichia coli, salmonella, shigella e staphylococcus aureus. “Todas essas bactérias podem contaminar os alimentos e trazer problemas gastro-intestinais pela ingestão da própria bactéria ou de toxinas”, diz profª Celeste.
Donas-de-casa e empregadas domésticas desconhecem riscos
A maioria das donas de casa ainda acredita que o banheiro é o local mais contaminado por germes e bactérias numa residência. Questionadas pela reportagem, elas não hesitavam em responder de pronto: “o banheiro!”. O argumento para tal afirmação é o fato de o local receber urina e fezes diariamente. A presidente do Sindicato das Empregadas Domésticas do RN, Ana Maria Costa, diz ter certeza absoluta que a desinformação é grande entre as responsáveis pelos afazeres domésticos.
“Muitas delas não sabem nem o que significa fungo, bactéria, germe. Elas não têm consciência do risco que correm todos os dias”, diz Ana Maria, 36 anos, cozinheira profissional. “Só o fato de o ser humano estar falando na cozinha já está lançando bactérias no ambiente”, considera.
Todos os anos o Sindicato das Empregadas Domésticas do RN realiza um curso entre as profissionais do lar, onde são passadas informações e dicas sobre os principais cuidados que se deve ter ao cuidar de uma casa. “Ensinamos muita coisa e a cozinha é um dos assuntos do curso. Mas tenho certeza que elas não cumprem o que falamos”, afirma Ana Maria Costa.
A empregada doméstica Valdiléia Mariano da Silva, 25 anos, diz trocar com regularidade a esponja da cozinha na casa onde trabalha, mas não faz o mesmo em sua própria residência. Ela não pensava que a cozinha fosse o ambiente mais contaminado da residência. “Achava que era o banheiro, porque é lá que fazemos todas as necessidades. A cozinha era o último lugar que eu diria. Não imaginava nunca.”
Também crendo ser o banheiro o campeão doméstico da contaminação, principalmente por atrair insetos como baratas, a dona-de-casa Adelaide da Silva Ribeiro, 69 anos, diz tomar bastante cuidado com a higienização da cozinha, em especial com a pia, mas admite que não segue a orientação de trocar a esponja semanalmente. “Troco de quinze em quinze dias, mas vou passar a trocar toda semana”, promete.
Já Célia Maria dos Santos, 46 anos, troca a esponja toda semana e diz seguir alguns cuidados como guardar as panelas emborcadas, colocar restos de comida na lixeira e, na hora de lavar a louça, começa pelos copos para só depois lavar pratos e panelas emgorduradas. “Também lavo o depósito de colocar sabão.”
Bactérias longe da cozinha
Limpeza
- Esqueça os panos de prato! Os tecidos desses panos possuem condições perfeitas para a proliferação de bactérias, principalmente quando úmidos por longos períodos. Substitua-o por rodo de pia, toalhas de papel e escorredor de pratos.
- Troque objetos de madeira, como tábua de cortar carne, rolo de macarrão ou colher de pau, pelos de plástico branco. A madeira acumula matéria orgânica e absorve umidade, favorecendo a multiplicação de bactérias. É difícil desinfetar esses objetos porque a umidade fica retida neles.
- Na hora de lavar pratos, não esqueça que o detergente não mata os germes; apenas desengordura os utensílios. O ideal seria lavar primeiro os copos, para que a gordura de pratos e talheres não passe da esponja para eles.
- A esponja deve ser trocada a cada semana de uso. Não use a mesma esponja por período superior a esse.
Preparo
- As mãos de quem prepara os alimentos devem estar sempre limpas. Portanto, evite usar a lixeira de pia. Ao abrir sua tampa, fatalmente você irá contaminar as mãos ao encostar na sujeira. Prefira as lixeiras que abrem com pedal e deixe-as sempre no chão.
- Evite preparar ovos mal-passados, crus, ou comida à base deles, pois alguns ovos apresentam na gema a bactéria salmonela, grande causadora de infecções intestinais. Não se arrisque em maioneses caseiras nem em ovo frito com gema mole.
- Prefira água sanitária a vinagre na hora em que for desinfetar frutas e verduras. Mas atenção! Nem todas as marcas ou tipos são indicados para esse fim. Leia o rótulo antes de usar.
- Não sirva carnes mal-passadas, pois podem conter bactérias. O ideal é comer o alimento preparado na hora. Evite deixar comida por muito tempo em cima do fogão, e também comer o alimento frio ou morno, pois pode haver a multiplicação de bactérias causadoras de infecções gastrointestinais.
Geladeira
- Não é preciso esperar a comida esfriar para colocá-la na geladeira. Isso é coisa do passado. É recomendado guardar a comida ainda morna no refrigerador, bastando apenas deixar o recipiente aberto enquanto a comida esfria.
- Potes com comida, que vão à geladeira, não podem estar muito cheios, nem completamente cobertos por outros potes. Também não deve-se guardar panelas com comida na geladeira, porque, além de não vedar direito também é difícil de refrigerar.